sábado, junho 16, 2007

Camões e D. Sebastião na obra de Reinhold Schneider


Decorreu na Universidade de Aveiro o lançamento do livro CAMÕES E D. SEBASTIÃO NA OBRA DE REINHOLD SCHNEIDER de Maria Cristina Carrington.

A apresentação da obra esteve a cargo de Telmo Verdelho, cuja intervenção aqui reproduzimos:



"A apresentação de um livro novo, cheio de novidades e de motivos de satisfação e de bom gosto é a melhor das festas que hoje se pode celebrar. Não temos já a pureza de alma e o entusiasmo que sentiam os Romanos no século I, quando o poeta Públio Estaço anunciava uma nova produção poética. Dizem que a cidade de Roma se alvoroçava com a expectativa. A verdade é que nem todos os livros merecem hoje a generosidade do público. Publicam-se muitos livros que poderão ser considerados subprodutos poluentes.

Em todo o caso, um bom livro é um ornamento para a cidade, é uma forma superior de comunicação. No dizer de Starobinsky, é um dom faustoso que vai reduzindo o vazio que nos desassocega e degrada a existência.

Quem apresenta um livro não deve resumi-lo para não tirar o prazer da descoberta aos que o querem ler e para não dispensar da leitura aqueles que têm obrigação de o ler. Mas sempre adiantarei que neste livro se fala e se encontra notícia de pessoas ilustres que a maior parte dos portugueses gostaria de conhecer e que nele se acumula uma amplíssima informação cujo conhecimento será certamente muito gratificante para quem tiver a feliz iniciativa de o ler. Camões e D. Sebastião na obra de Reinhold Schneider é um livro que, à primeira vista, nos parece pouco solicitante para uma leitura não programada.

O próprio título, aliás sonoroso e bem cadenciado, remete para um universo de referência que está um pouco ao lado dos temas dominantes do alarido comum. Camões, D. Sebastião, Reinhold Schneider não são nomes que se encontrem nos discursos públicos e no atordoamento quotidiano da televisão e da rádio. A parasitagem do tempo livre dos cidadãos é feita com paixões pobres, com muitas lágrimas, palavras escassas e repetidas, e pouco trabalho mental.

Esta obra faz-me lembarar um dito com muita agudeza de Manuel de Faria e Sousa (1590-1660), na Introdução da sua monumental edição de "Os Lusíadas". Observa ele que Camões não escreveu para estúpidos, nem para ignorantes, nem para perguiçosos — cito de memória e adequada aproximação. Também o texto de Cristina Carington precisa de ânimos diligentes que tomem a decisão inicial de leitura, digo inicial porque, depois do começo, certamente surgirá o desejo de continuar até à leitura do apêndice. Este livro gratifica os leitores.

Entre os muitos aspectos que dão bom fundamento ao meu testemunho, anotarei apenas o facto de nele se reunirem três bons espíritos que não podem senão merecer-nos toda a estima e assegurar-nos a alegria do encontro: Reinhold Schneider, Camões e, naturalmente a autora Maria Cristina Carrington.

Reinhold Schneider é uma figura original de escritor, que avulta entre os estudiosos alemães que favoreceram a língua e a cultura portuguesas e particularmente o estudo da obra de Camões. Trata-se de uma galeria preclaríssima de filólogos, linguistas, historiadores, pedagogos que, sobretudo a partir do início do séc. XIX, até à presente geração de lusitanistas, ajudaram e serviram Portugal, essencialmente por amor da ciência. Cristina Carrington elaborou uma excelente, recorrida e bem fundamentada síntese com os principais nomes desta pléiade de lusófilos.

Se não fossem os estudiosos e eruditos alemães, podemos supor que, ainda hoje, Camões seria em grande parte desconhecido dos portugueses. Ensinaram-nos a ler e a estudar a obra do Épico e principalmente do Lírico.

Como português, não posso deixar de agradecer esta prestimosa colaboração, mas não posso também deixar de reconhecer um sentimento de melancólica humilhação. Nos estudos portugueses dos autores alemães somos confrontados com uma cruel denúncia da nossa ignorância e da nossa acédia em relação ao estudo da língua e da literatura e à salvaguarda da nossa memória.

A denúncia deste desleixo que nos envergonha fica especialmente patente no caso das edições das obras de Camões. Antes dos trabalhos de Wilhelm StorcK, eram publicadas, como sendo de Camões, obras de mais de 30 autores, portugueses e espanhóis, seus contemporâneos. E não fica por aqui a nossa miséria. Diz José Maria Rodrigues, num interessante texto que tem por título “D. Carolina Michaëlis e os estudos camonianos” (publicado in Lusitânia, vol.IV, X, outubro, 1927, p.45-60):
"O desleixo e a ignorância chegaram a ponto de se terem atribuído a Camões poesias que já corriam impressas antes de ele ter nascido! É o que acontece com três redondilhas de Garcia de Resende, que, publicadas no Cancioneiro geral ( 1516 ), ainda são atribuídas a Camões, por exemplo, na “edição crítica” do Dr. T. Braga [1911]. São as que começam pelos versos: a) Pois é mais vosso que meu; b) Senhora, pois minha vida; c) Esperei, já não espero." (p.51).

Os trabalhos de Reinhold Schneider (1903-1958) integram-se neste quadro, não tanto como um contributo de filólogo, mas como leitor que promove uma interpretação de algum modo biografista da obra de um Camões que sofre as dores da pátria, que interpreta o seu destino e que promove a sua salvação.

Teófilo Braga e outros historiadores da literatura portuguesa consideravam que só tinha interesse para a história da literatura o que pudesse contribuir para o esclarecimento da vida dos autores, com alguma ligeireza em relação à mensagem literária. O próprio texto literário era lido como uma fonte biográfica, dando origem a muitos equívocos e a textos de pouca ciência.

Reinhold Schneider transcende esta dimensão e aproveita a biografia para redimensionar a semântica da obra literária. Neste sentido redescobriu Camões e leu-o num contexto de analogia com Portugal, como um autor-agente da sobrevivência ou superação histórica de Portugal. Podemos pensar que sem Camões, Portugal não seria viável, ou pelo menos, poderia ter perdido a sua viabilidade.

Hernâni Cidade (que muito provavelmente conheceu a obra de Schneider) valorizou esta perspectiva e, entre outros aspectos, em favor desta tese, observa que "Os Lusíadas" foram objecto de mais de 30 edições entre 1580 e 1640. Este facto parece comprovar que "Os Lusíadas" foram mobilizados como uma arma de defesa contra a ocupação da Monarquia dual Filipina. É uma figura fascinante este alemão que nos é aqui revelado e que se encontrava em densa penumbra. Com prazer o reencontramos, como grande escritor, como um arauto para a leitura de Camões e como uma referência crítica para a história da cultura portuguesa.

Camões é o segundo bom espírito deste livro. Ainda ontem (10 de Junho) o celebrámos, e nunca o celebraremos com a plena exaustão da sua herança literária.
Este livro promove o reconhecimento da sua obra como um dom providencial, por nós geralmente mal aproveitado. Na verdade, a lírica de Camões, é a "suprema festa da língua portuguesa", na expressão inspirada de Eugénio de Andrade (Sonetos de Luís de Camões, escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000). Bem precisamos de livros como este, porque os portugueses hoje andam muito tristonhos e arredados dos viveres festivos.

Finalmente, o argumento mais convicente para a leitura deste livro, não seria necessário dizê-lo, aqui entre nós, é a sua própria autora. Nada o recomenda tanto como o bom espírito de Cristina Carrington, a simpatia, o gosto de viver, o gesto solidário, o saber ser fraterno, e sobretudo, para tosos os presentes, o privilégio da sua parceria na Universidade de Aveiro e no Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos. Não significa que o presente trabalho, só por si, seja de menor valia académica e científica. Os seus muitos méritos dariam lugar a um rol de louvores. Destacarei apenas o grande serviço prestado, às relações interculturais com a Alemanha, à história da literatura e à história da cultura portuguesas, e muito particularmente aos estudos Camonianos. É um livro de grande qualidade, feito com generoso cuidado, até ao pormenor de traduzir o texto e as expressões em alemão que foi forçoso citar ao longo da obra. Em todo o caso, toda a gente sabe, por experiência própria, o reconhecimento da autoria aumenta obviamente a legibilidade de qualquer livro. Quando conhecemos o autor de um livro e o sabemos digno de estima, é antes de o abrir que a leitura começa, com uma espécie de empatia transverbal que se recebe como uma parte importante da mensagem.

Um livro é uma forma de comunicação superior e certamente uma forma de comunicação das mais elaboradas. Este está especiosamente fabricado. O trabalho gráfico é excelente e beneficia ainda de uma deslumbrante apresentação, com uma capa de boa arte, que, para além da solicitação visual que deverá mobilizar o leitor, faz deste livro um objecto de ornamento do espaço público e do espaço de habitação, em qualquer estante ou na mesa de leitura".





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