domingo, dezembro 17, 2006

Lançamento de livro de Isabel Babo-Lança

As Edições MinervaCoimbra promoveram recentemente o lançamento da obra de Isabel Babo-Lança, "A CONFIGURAÇÃO DOS ACONTECIMENTOS E DOS PROBLEMAS PÚBLICOS. O “CASO REPÚBLICA” E AS MANIFESTAÇÕES NOS AÇORES EM 1975".

A sessão decorreu na
Fundação Dr. António Cupertino de Miranda e a apresentação esteve a cargo de Fernando de Sousa, da Universidade do Porto e director do CEPESE, e José Rebelo, do ISCTE.

Se o acontecimento constituía já um objecto de estudo preferencial da historiografia e da sociologia da comunicação, desde a década de 90 passou a constituir também objecto de análise sociológica. No contexto de uma sociologia inspirada na etnometodologia, na fenomenologia, na narratologia, na hermenêutica e na filosofia analítica, o acontecimento passou a ser considerado não tanto como objecto de análises semióticas ou factuais, mas enquanto fenómeno susceptível de conduzir a uma reelaboração da própria concepção do social.

Na convicção de que é em função dos fins práticos da acção colectiva no espaço público e na perspectiva da organização da experiência pública que os actores sociais explicam e interpretam o que se passa em termos de acontecimentos e/ou de problemas prováveis e de acções imputáveis, examinam-se, na presente obra, as diferentes maneiras de descrever um acontecimento, de o designar e caracterizar, de tematizá-lo e de o transformar em problema público. Pretende-se mostrar que a configuração e construção do sentido dos acontecimentos depende de realizações práticas, ao nível da sua produção e da sua recepção, e que as descrições, as categorizações e as narrativas intervêm na construção social e pública daquilo de que elas próprias dão conta.

Os dois acontecimentos em análise ocorreram em Portugal no período revolucionário de 1975, sendo eles o caso República e as manifestações separatistas nos Açores. Não é em termos de uma causalidade histórica que estes dois acontecimentos particulares, tomados como objecto de análise, são abordados, ensaiando-se antes apreender por meio de que operações foram identificados e dotados de sentido. Trata-se de uma abordagem sociológica particular, que produz uma inteligibilidade dos acontecimentos diferente da perspectiva que visa uma explicação causal, na medida em que não perde de vista o facto de o caso República e as manifestações nos Açores terem acontecido a pessoas que suportaram esses acontecimentos, os sofreram, foram afectadas por eles, deles se apropriaram, responderam-lhes e reagiram em função das significações que lhes atribuíram e que aplicaram à sua experiência pública.

Isto é, sendo factual, um acontecimento é também relativo a um ponto de vista e aos recursos semânticos e simbólicos escolhidos para o descrever. Pode transformar-se num problema público, fixar sobre si a atenção colectiva e desencadear uma acção pública. A sua configuração pode ser revista e o acontecimento adquirir uma inteligibilidade retrospectiva e uma nova significação.










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