
"Não sei quando comecei a adoecer. Se calhar desde o dia em que nasci, por ser essa a idade em que todos começamos a morrer. Nós sabemos isso; não nos damos conta porque só a morte dos outros é que é verdade. Mas lembro-me do momento em que me disseram que estava realmente doente. Foi ao início de uma tarde de sol, coado por entre a folhagem das árvores de um dia morno de fim de Primavera, e a minha alma ficou gelada. A partir de então, como sucede agora, acontece questionar-me com frequência sobre a vida, que vejo como um regato frio a correr murmúrios por entre as pedras já gastas pelo caudal de correntes passadas, onde as janelas da casa que me viu nascer já não sabem quem sou".
(fragmento de um de trinta e nove textos, escritos na sequência de outros tantos tratamentos de radioterapia, a que o autor se submeteu nos Hospitais da Universidade de Coimbra)

Sem comentários:
Enviar um comentário