quarta-feira, dezembro 21, 2011

CRISTINA ROBALO CORDEIRO e «REMINISCÊNCIAS DA LUZ»





Num auditório repleto de familiares, colegas e amigos de Cristina Robalo
Cordeiro, decorreu a apresentação do livro «REMINISCÊNCIAS DA LUZ»
a sua primeira obra ficcional, que obteve Menção Honrosa do XIV Prémio Literário Orlando Gonçalves, Amadora, 2011. A apresentação coube ao Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, José de Faria Costa, também conhecido pelo pseudónimo literário Francisco d’Eulália
Isabel de Carvalho Garcia abriu a sessão agradecendo em nome das Edições MinervaCoimbra a Artur Côrte-Real (Diretor do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha) a cedência do Auditório do Museu, a Francisco d'Eulália (apresentação do livro), a Cristina Robalo Cordeiro pela amizade e pela preferência, e também a Bruno Sacadura (autor das fotografias) e a Maria Manuel Almeida (leitura de texto). Seguiram-se as intervenções de Francisco d'Eulália, Cristina Robalo Cordeiro  e Maria Manuel Almeida a quem coube a leitura de um texto dedicado a Inês de Castro, tendo sido criado um ambiente intimista que agradou aos presentes. 












Pierre Jourdan, Cristina Robalo Cordeiro, Ana Robalo, Manuel Robalo Almeida, Nuno Almeida

Com o título Reminiscências da Luz, obra ficcional que obteve, em Outubro 2011, a Menção Honrosa do XIV Prémio Literário Orlando Gonçalves, Amadora, Cristina Robalo Cordeiro reúne, com a chancela das Edições MinervaCoimbra, quinze “histórias quebradas” oscilando entre a representação de um vivido metamorfoseado e a evocação de cenários oníricos em parte inspirados pelas fotografias de Bruno Sacadura. 

Isabel Garcia depois das palavras iniciais disse:

«Não é um acto académico.
Não se pode tratar de uma apresentação clássica.

Por isso, o que Cristina Robalo Cordeiro quer que seja dito dela:

Nasceu em Coimbra. Vive em Coimbra e gosta de viver em Coimbra.
Estudou na Universidade de Coimbra que serviu com seriedade e apaixonadamente durante 35 anos!

É francófona e francófila militante e como tal reconhecida por quem de direito!
E quer que este continue a ser um dos traços da sua vida pessoal e profissional!

Sente-se rodeada de muitos amigos, fiéis e preciosos!

Tem uma família excepcional (e um neto especial)!

E gosta de pensar que sempre, em toda a sua vida, honrou o nome de seu pai!"

E todos nós, os seus amigos e também os seus colegas sabemos que sim. 
A Cristina Robalo Cordeiro é uma mulher de excepção, a nível pessoal e profissional. Com orgulho, e sem preconceito, deixem-me dizer em nome das Edições MinervaCoimbra, que é para nós um privilégio contarmos com mais este livro de CRC no nosso catálogo de edições. O nosso obrigada!»

A seguir passamos texto de Cristina Robalo Cordeiro:

«Caros Amigos/as, 

Dirijo-me hoje a vós não sem uma sensação de embaraço e de intranquilidade.
Não por tomar a palavra em fim de tarde literário e menos ainda por dar a ouvir a minha voz, uma vez mais, a tantas e tantos amigos que sempre me acompanham nestas ocasiões.
Sei o que penso e o que sinto quanto reflicto sobre os textos de outros, como os de José de Faria Costa ou de Francisco d’Eulália. Tenho aliás a veleidade de pensar que posso entender o que ele sente ao ouvir-me.
Mas foi-me mais difícil saber o que ele sentiu ao ler-me e o que imaginou que eu iria sentir ao ouvi-lo!
Mudar o lugar de onde se fala – do espírito, da sensibilidade ou da inteligência de quem analisa e comenta, para a alma e o desassossego de quem escreve –, daquele lugar dali de quem diz o outro – lido, meditado, transcrito pela razão - para este lugar daqui de quem não sabe como (ou o que) dizer de si e da sua escrita… vai uma fronteira para a qual não sei se o meu passaporte está em dia ou caducado. Como em passagem de um mundo a um outro mundo. Como se este meu reino não fosse já desse meu mundo!

Mas, tranquilizai-vos, esta é uma vez sem exemplo!

É certo que, num momento ou noutro das nossas vidas – das vidas de cada um e de cada uma de nós -, a tentação da escrita atravessou a nossa mente. Não com aquela ingenuidade com que todos escrevemos poemas de amor ou de raiva aos 15 anos. Mas de uma forma mais madura, como um exercício reflectido.

Não há contudo semelhança possível entre aquele instante de loucura em que dizemos de alguém que nos enfurece – qualquer dia passa-me uma coisa pela cabeça e ainda o mato - e o momento lúcido da irrealidade desse gesto (desejado mas insano) de destruição radical.
Talvez por isso sempre achei improvável essa passagem ao acto. Não sendo Balzac, nem Proust, nem Appolinaire, mas apenas professora de literatura francesa, que ousadia era essa de me pôr (e me expor) a contar historietas de trazer por casa?

Como em tantas outras coisas na vida, enganei-me! Não quanto à importância do que escrevinhei para a generosidade da vossa leitura – haveis compreendido que procuro assim uma captatio benevolentiae -, mas quanto à essencialidade das palavras que a mim própria (ou de mim própria) quis dizer. Porque há de facto um momento da escrita, há mesmo um momento em que a escrita é mais do que inevitável, um momento em que a pulsão se faz compulsão, e se torna imparável.

É claro que houve as fotografias de Bruno Sacadura. Primeiro a série de Marrakech depois as Lágrimas, depois ainda os Campos do Mondego. Houve essa linguagem do silêncio e da luz, esse olhar que me ensinou uma outra duração do tempo, uma outra forma de ver a alma das coisas escondida na superfície trivial dos objectos. E de sentir a tranquilidade (ou a intranquilidade) da beleza captada no instante fugidio e eterno.

E houve ainda a travessia do vale Oukaimeden, a sudoeste de Marrakech, um dia na companhia de um poeta marroquino Mourad, Khireddine Mourad, no início da primavera de 2011, no trilho das casas de pisé, casas de terra e pó, esculpidas nas íngremes escarpas do Alto Atlas e envoltas na névoa da manhã. E um outro silêncio agora, o das palavras de um profundo conhecedor do sufismo que soube mostrar-me o valor do presente onde apenas cabe o que verdadeiramente constitui a essência do que somos, sem nostalgia do passado nem esperança de um qualquer futuro, numa sabedoria da vida que afasta tudo o que negativamente nos consome e nos transforma. Um carpe diem exigente que é também uma forma de espiritualidade absoluta e de conhecimento de si, de um ser em si que recusa ressentimento, desencanto e maledicência, que desvaloriza a voragem que nos anula no turbilhão da insignificância das coisas (papéis, tarefas, desejos, ânsias) a que tanto valor cegamente atribuímos.

E depois, depois houve as longas noites de Março e Abril de 2011, à procura de sossego e de sentido, quando tudo – muito – parecia ter-se esvaído em desrazão.

Veio então a outra voz em mim dizer-me que, de tudo o que nos magoa e nos pode ser negado há algo de intocável, algo de sagrado, algo que tem a ver com a liberdade de sermos o que somos, de escolhermos o que queremos ser, de não precisarmos de nenhuma máscara que esconda o nosso sorriso ou a nossa lágrima, a nossa alegria ou a nossa tristeza, a nossa paz ou a nossa indignação. Um momento para abrir o coração apenas ao que merece estar no nosso coração.

Veio então essa musa nocturna que de repente nos fala ao ouvido, primeiro de forma leve, muito leve, quase imperceptível, e que vai pouco a pouco entrando em nós, nos nossos olhos e nos nossos ouvidos, na nossa razão e nos nossos devaneios, nos nossos gestos e nos nossos sonhos. Até tomar conta do nosso corpo. De forma total e imperiosa. Aí não há nada a fazer. Sentamo-nos à secretária, pegamos na caneta, e ouvimos o que ela tem para nos dizer.
Nem sempre a entendemos. Há nela ecos de tantas leituras, de tantas imagens, de tantas memórias. Nem sempre nos entendemos. Há em nós tantos nós, tantos sentidos e tantos instantes, tantas certezas e tantas hesitações. Também não sei se é preciso que tudo seja sempre compreensível!

Nasceram então estas minhas reminiscências da luz, como se houvesse uma memória para lá de nós, que está connosco e que ignoramos (que faz parte da nossa solidão mas que nos impede em absoluto de sermos solitários). A luz não é nunca aquela lâmpada que acendemos quando a noite cai docemente sobre nós mas esse brilho, essa faísca guardada na mais profunda prega do nosso ser só (e que aqueles que nos conhecem e nos amam levemente vislumbram). Vultos vieram povoar a penumbra dessas horas à espera da alvorada. Deixei-os entrar. Acolhi-os. Pedaços de mulheres (quase sempre), delírios ou fantasmas que me encheram as noites de uma vida para lá da vida. E como é bom sabermos que há sempre vida para lá da vida! Vozes vieram que tiveram a ousadia de falar por mim, em meu lugar, que me fizeram dizer coisas que ignoro, como uma segunda vida, uma reminiscência de uma outra existência, um real para lá do real, uma memória dispersa ou perdida ou inventada. Como a bouche d’ombre de Victor Hugo, saída das profundezas da terra e da alma.

E depois, quando tudo parecia consumado, veio a Isabel, feita Rainha Santa Isabel, a abrir o manto e a deixar cair livros em vez de rosas – mas com a conivência do marido… -, e muito mais do que livros, a distribuir em todos nós alegria e generosidade, afecto e disponibilidade, uma alma grande onde há lugar para tudo e para todos, que nada recusa a ninguém e para quem nada é impossível. A Isabel sempre atenta e em escuta, livre e presente. A Isabel que todos conhecemos.

E veio ainda o José/ Francisco, amigo e cúmplice deste outro lado de nós. Que aceitou, sem hesitação, emprestar a sua cultura, a sua sensibilidade e a sua eloquência a estas páginas despretensiosas. Quando pensei pedir-lhe para estar hoje aqui comigo, veio-me à memória uma canção de Serge Reggiani,
Ce qui me plait dans ce duo, c’est que tu fais la voix du haut. C’est toi qui sais, c’est toi qui dis, c’est toi qui penses et moi je suis ! … nous sommes ensemble un vieux couple!

E por fim veio este auditório com tantos amigos. Que eu sei estarem sempre comigo!

E porque estamos no Museu de Santa Clara – que tão gentilmente nos acolhe (e a cujo director devo uma palavra de gratidão) -, e porque Inês de Castro – figura que sempre olhei aliás com uma vaga indiferença - foi uma presença que se impôs, num estranho mosaico de crime, injustiça e traição e a partir da qual fui desenhando outros fantasmas, quase sempre de feminino contorno –, porque Inês de Castro aqui foi velada pelas irmãs clarissas na noite em que foi assassinada, gostaria de terminar este nosso encontro de uma forma diferente.

O Prelúdio de Pélleas et Mélisande de Debussy abrirá a leitura que a Maria Manuel Almeida – amiga de sempre, desde os tempos da bata verde do Liceu Dona Maria – fará do texto Reminiscências da Luz (onde a voz da Inês do passado se cruza com a voz de uma Inês do presente) acompanhando as fotografias de Bruno Sacadura que o inspiraram.
Vamos ver e ouvir.

Muito obrigada pela vossa presença amiga e pela vossa atenção.»

16 de Dezembro de 2011
Museu do Mosteiro de Santa Clara
Cristina Robalo Cordeiro

segunda-feira, dezembro 12, 2011

EDGARD PANÃO e «O TOMBO DA REPÚBLICA - ENSAIO SOBRE O PERÍODO INICIAL DO NOVO REGIME POLÍTICO (1910-1926)» na BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ESTARREJA [17 de DEZEMBRO, 16H00]





CONVITE

O Presidente da Câmara Municipal de Estarreja, 
José Eduardo de Matos, o Autor 
e as Edições MinervaCoimbra
têm a honra de convidar V. Exa para a
apresentação do livro

« O TOMBO DA REPÚBLICA - ENSAIO SOBRE O PERÍODO INICIAL DO NOVO REGIME POLÍTICO (1910-1926)» de EDGARD PANÃO

que será feita pelo Prof. Doutor Manuel Augusto Rodrigues
(Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).

A sessão realiza-se no próximo dia 17 de Dezembro,
sábado, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Estarreja.

sábado, dezembro 10, 2011

CRISTINA ROBALO CORDEIRO e «REMINISCÊNCIAS DA LUZ» [ AUDITÓRIO DO MUSEU SANTA CLARA-A-VELHA ] 16 de DEZEMBRO, 18 HORAS, COIMBRA



CONVITE



Cristina Robalo Cordeiro publica obra de ficção



 Com o título Reminiscências da Luz, obra ficcional que obteve, em Outubro 2011, a Menção Honrosa do XIV Prémio Literário Orlando Gonçalves, Amadora, Cristina Robalo Cordeiro reúne, com a chancela das Edições MinervaCoimbra, quinze “histórias quebradas” oscilando entre a representação de um vivido metamorfoseado e a evocação de cenários oníricos em parte inspirados pelas fotografias de Bruno Sacadura. 
A propósito desta tentativa de escrita, insólita na produção habitual da autora, Helder Macedo afirma: Não é preciso contar uma história para contar uma história. Às vezes é melhor contar muitas e organizá-las numa sequência que conta a sua própria história. Como também acontece em poesia, se a sequência das mesmas histórias fosse outra, a história seria diferente. A inovadora estrutura deste livro é uma história possível de quem a escreveu contada como se fosse a história da sua escrita, enquanto Manuel G. Simões, membro do Júri do Prémio, a caracteriza da seguinte forma: Trata-se de um conjunto de textos ligados por uma voz intimista que parece deambular entre o afecto e o desejo. São histórias povoadas de silêncios e da memória da ausência no (des)encontro que é a vida. No interstício dos vários fragmentos sobressai a ânsia de um tempo novo, de uma palavra nova ainda não diluída pela usura e que não é um elemento espúrio no corpo textual. É uma colectânea que, na sua diversidade temática e formal, revela uma unidade de estilo e de linguagem.
A apresentação da obra será feita por José de Faria Costa, também conhecido pelo pseudónimo literário Francisco d’Eulália.
O evento terá lugar no próximo dia 16 de Dezembro, sexta-feira, pelas 18h, no Auditório do Museu de Santa Clara.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

ARMANDO PONCE DE LEÃO e «HOMENAGEM A ANDY WARHOL», na QUINTA DAS LÁGRIMAS em COIMBRA


 Decorreu no Hotel Quinta das Lágrimas a apresentação do mais recente livro de Armando Ponce de Leão, «Homenagem a Andy Warhol».  





 A Sala Jardim, no Hotel Quinta das Lágrimas, foi pequena para acolher familiares, colegas e amigos do Professor universitário e conceituado investigador que quiseram marcar presença. 

Isabel de Carvalho Garcia abriu a sessão apresentando sucintamente as duas especialistas em linguística, tecendo-lhe rasgados elogios, assim como ao Autor. Isabel Garcia evocou Aníbal Pinto de Castro, que tinha afirmado aquando do lançamento do primeiro livro literário do autor, A não história da mãe sobrante, que estávamos perante "uma arte de narrar". Ao lembrar o saudoso catedrático, IG fez um paralelismo entre a arte de narrar atribuída ao autor e a arte que este pretende que o livro tenha na sua concepção gráfica, criando espaços e formas conceptuais.

Para as duas especialistas, Graça Capinha e Isabel Ponce de Leão, a quem coube a apresentação da obra, este livro que o autor intitula de contos, cria nas duas especialistas algumas dúvidas, Isabel Ponce de Leão, disse a este propósito:  «Livrando-se de todos estes problemas, ludibriando o leitor com avanços e recuos, cedendo à comédia e ao drama, Armando Ponce de Leão parece reivindicar para a sua obra a denominação de contos.
Pois que sejam, se assim o quer e assim o anuncia o criterioso prefácio de Fernando Paulouro das Neves. Não me prenderei com a poética dos géneros ainda que queira deixar lavrada a minha admiração pelos autores da narrativa breve. De facto, parece-me que o conto está para o romance como o soneto para a canção e sempre me questionarei sobre qual exige maior genialidade....»

Aqui fica o texto de Isabel Ponce de Leão:

«Conclave

Quando Machado de Assis, em Dom Casmurro, anuncia a génese da sua obra, interessantemente afirma – num romance que, ainda por cima, é realista – que o seu evidente objetivo é “atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência” deitando “ao papel as reminiscências que vierem vindo de forma a voltar a viver o passado”. Admite pois que, em qualquer situação, o homem ao escrever, escreve-se. Que tem isto a ver com Homenagem a Andy Warhol de Armando Ponce de Leão? Pois tudo e nada.
Nada porque não vislumbro envelhecimento no autor de uma prosa viva, acutilante, ritmada, que impõe o conciliábulo ironia / humor pouco compatível com um amolecimento serôdio. Tudo porque dela irrompe a necessidade premente de fazer da vida um continuum arrastando o passado para o presente, embrenhando-os numa edificação carente da plenitude que move qualquer ser humano. Tudo ainda porque, em Homenagem a Andy Warhol, o autor assume explicitamente que aí estão plasmadas as suas reminiscências.
Comprova-o o pouco inocente paratexto (p.11) extraído de Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar. Através dele os autores real e ficcional, ou alguém por eles, estabelecem um pacto em que confirmam uma escrita do eu camuflada pelas várias personae reivindicadas pelo universo diegético de natureza ficcional. A cedência de protagonismo às ditas personae evita o exercício da simulação e da imitação da vida para tornar o discurso na própria vida dando-lhe vida própria. Mesmo quando Gusdorf afirma “Écrire, c’est toujours écrire moi” não deixa de ter em mente a barreira imprecisa entre o que se é, o que se supõe ser e aquilo que a escrita reproduz. Livrando-se de todos estes problemas, ludibriando o leitor com avanços e recuos, cedendo à comédia e ao drama, Armando Ponce de Leão parece reivindicar para a sua obra a denominação de contos.
Pois que sejam, se assim o quer e assim o anuncia o criterioso prefácio de Fernando Paulouro das Neves. Não me prenderei com a poética dos géneros ainda que queira deixar lavrada a minha admiração pelos autores da narrativa breve. De facto, parece-me que o conto está para o romance como o soneto para a canção e sempre me questionarei sobre qual exige maior genialidade. Imagino Aquele Grande Rio Eufrates de Ruy Belo circunscrito num soneto, ou o Ulysses de James Joyce (que aqui espreita) reduzido num conto, e sinto uma concentração emocional, e uma densidade conflitual explosivas, a mesma que me provoca esta Homenagem. Exagero, eu sei, mas que este tom hiperbólico traduza o meu visto bueno à narrativa breve quase abandonada desde Allen Poe e agora de novo emergente. 
Assim sendo, direi que Armando Ponce de Leão a trata com uma subtileza clivada de desafios e provocações, ao manipular aquele 3.º estado a que alude Jauss, de forma a assistir a um espetáculo que também protagoniza num processo de autognose disfarçado nas linhas necessariamente ficcionais.
O desafio começa no próprio título, só aparentemente enganador do conteúdo da obra. Esclareço: pospondo, por enquanto, a semântica textual, erijo a policromia e a polifonia discursivas enformadas em contrastes de luzes e sombras, e cruzando sons e objetos de ontem e de hoje vaticinados em toadas sinestésicas. O visualismo é de tal forma apelativo que, não raro evoca Andy Warhol em estreita cumplicidade com Truman Capote. Contos há que sugerem, pela reprodução mecânica, temas do quotidiano cheios de elementos descartáveis.
Colho o conto que dá o nome à obra e tudo concorre para a veloz imersão num precipício. Num estilo torrencial à Kubrick, o cineasta e mestre de xadrez, Armando Ponce de Leão move sem acrimónia as peças no tabuleiro da vida sabendo que vai ser dado xeque ao rei. Umas chaves, metáfora do lar, episodicamente desaparecidas, mesmo se posteriormente encontradas no balde do lixo, prenunciam a desagregação de uma pequena família constituída por um pai com alzheimer, uma filha que morre em consequência de um desmancho e uma mãe que, num instinto de sobrevivência, “ia de autocarro, quase uma hora, arranjou o seu lugar à porta de uma igreja, havia sombra de manhã e à tarde, foi sorte, não precisava de meninos ao colo, as pessoas ajudavam” (p. 78). A vida – um longo filme de Andy Warhol, a procura das chaves entre facas e latas de Campbell’s perante os olhares indiferentes de Monas Lisas e Marilyns.
O tom metafórico a que aqui aludo, mais no âmbito conceptual e menos no linguístico, que se reduz à ponta do icebergue, é visível ao longo de toda a obra e configura a viagem da vida. Armando Ponce de Leão constrói sistemas conceptuais abstratos a partir de imagens esquemáticas e conceitos diretamente ligados à experiência; assim sendo, ainda que os mecanismos metafóricos não sejam exclusivamente linguísticos mas sim estruturalmente conceptuais, são acessíveis mediante a análise linguística.
Tal é o caso de “O Tubo” onde, numa situação de autodiegese, o narrador empreende a longa viagem da vida, consciente de que “quanto maior é o saber, maior é naturalmente o saber da ignorância” (p. 60), e mais consciente ainda de que neste percurso vertiginoso, abrupto, arrepiante encontra gente “de todas as idades e cores e raças e extratos sociais” rumando a um mesmo fim. Torna-se interessante aqui observar, como de resto se observa em “Pranto da casa nos pinhais” (p. 17), “O tetraedro ou os limites do conhecimento” (p. 33) ou “O bailarino atleta” (p. 103), entre outros, a explícita e assumida empatia conteúdo / forma. O ritmo fraseológico acompanha o ritmo da queda. Para e avança, encolhe-se e alonga-se, volatiza-se e corporiza-se coordenando uma mancha gráfica ondulante, asfixiante, torrencial, que arrasta o leitor envolvido à exaustão. A forma serve o conteúdo sem preocupações de ortodoxia narratológica reivindicando um certo automatismo psíquico e insinuando o texto-produto na senda de Maiakovski. A tudo isto não será alheio o recorrente uso do polissíndeto reivindicativo de uma urgência apocalíptica no mistério da vertigem.
Cautamente me aproximo, apenas me aproximo, da noção de uma literatura do absurdo, um absurdo calculado, que corre apenas os riscos que pretende correr. Aqui há a certeza de que a vida tem sentido e, apesar do abismo, sente-se a consciência da necessidade de uma posição lúcida de vigília, pois se o absurdo aniquila as possibilidades de liberdade eterna, devolve e exalta, ao contrário, as da liberdade da ação. Contudo, aqui e além, um sem-sentido, uma certa inconformidade com as leis da coerência e da lógica, uma desconstrução textual parecem tudo reduzir a um estado de ad absurdum revelador de contradições internas e impossibilidades lógicas.
Nestes contos, espreita um Sísifo sem nome que demonstra que pelo absurdo se resiste a todas as questões existenciais, dando respostas ao sentido da existência. Aqui se sente a angústia do nada para logo se achar resposta nas memórias do passado. Por isso Camus, Kafka, Beckett espreitam aqui e além, nem sempre sendo convidados a entrar, porque o ser humano de Armando Ponce de Leão ainda acredita no sentido da condição humana, crença sustentada na tal atadura das pontas da vida de que fala Machado de Assis. O nonsense, o grotesco, o fantástico, um certo tipo de humor, a que chamarei pérfido por rondar a negrura de forma desafiante e suscitar o equívoco entre comédia e tragédia, coabitam pacificamente com a memória mesmo se desconstruída pelo tempo. Presentifica-se então um outro eu que, mesmo quando dissimula, se adivinha reivindicativo dos afetos que podem justificar a vida.
A este propósito não posso deixar de evocar o magnífico conto-poema “A Casa da Mãe” reivindicador de um intimismo ab imo naquela “casa sagrada, confortante, / domínio deslumbrante” (p. 173) que parece neutralizar desencontros através de um improvável regresso ás origens. Introversão, secretismo anímico, família, quotidiano impõem-se com simplicidade e enorme discrição. Presentifica-se uma relativa hiperintimidade, mesmo se, paradoxalmente, irónica e impudica, traduzida em comportamentos excêntricos, que cortam radicalmente com os arquétipos, debruçando-se o homem sobre o enigma que ele mesmo é. Percurso vital, tentativa de resgate do ontem no hoje, o quase desespero dos espaços e dos tempos perdidos, a inviabilidade do “naître, vivre et mourir dans la même maison” de que fala Sainte-Beuve, tudo numa desconstrução surrealizante de um aparente desânimo. Não mais a casa da mãe mas o impessoal hotel, “com estada firme, sair no dia tal” (p. 173), onde o nonsense é refúgio de memórias: “pedi a refeição no quarto. / Enchi a banheira com água bem quente, fumegante. / Despejei delicadamente todo o conteúdo das travessas, / toda a refeição na banheira, / […] / Tomei banho nas ameijoas à Bolhão Pato, / no consomé, / no cherne grelhado, / no esparregado / […] / no sorvete de framboesa / […] / no risoto de cogumelos com presunto / (a lembrar os míscaros da minha infância) / na salada de frutas / […] / na mousse de chocolate” (pp. 175-176)
Há um deambular frenético, obsessivo em demanda da “véspera de não partir nunca” de que fala Álvaro de Campos. Cúmplices, conteúdo e forma agilizam um perigosíssimo funambulismo com um fim anunciado: “Noto agora que as bordas das conchas das amêijoas são ligeiramente cortantes, / dão um toque inesperado á pele, / um agridoce novo, / só comparável ao sabor do fino e fundo corte da lâmina no meu pulso” (p. 176). A morte viabilizadora da vida? No hotel, o banho quente, líquido amniótico na casa da mãe. O sabor agridoce do sangue, uma promessa de vida que se cumpre no desejo de retorno ao útero materno onde uma outra se inicia. Assim o leio com espanto, com admiração, com solenidade. Solenidade que é rito de toda a obra pois que agarra, vincula, exige disponibilidade porque cada um de nós fará, terá que fazer, esta Homenagem a Andy Warhol. Pouco interessa a forma. Interessa sim a explicação – mesmo se através do absurdo – da vida.
Contos? Talvez também o sejam, mas são, antes de mais, o pré-anúncio de que, numa forja mais ou menos longínqua, se esconde a poesia concreta. Esperarei para ver.
Quanto ao resto, que é a maior parte mas que aqui não disse, apelarei a uma leitura reflexiva, respeitosa, solene dos 20 contos que enformam esta Homenagem corporizados na excelente edição da Minerva, e que são uma inspiração para a vida. Não se esperem facilidades, mas grandes perturbações como é mister da obra de arte. Resguardo-me, por agora, em Andy Warhol: in the future everyone will be famous for fifteen minutes! Contudo, é no presente, Armando, que eu quero continuar a olhar o acervo de que a obra de arte é feita.Conto consigo.»

No Porto em 28 de Novembro de 2011
Isabel Ponce de Leão


quarta-feira, novembro 30, 2011

APRESENTAÇÃO DO LIVRO «HOMENAGEM A ANDY WARHOL» de ARMANDO PONCE DE LEÃO [ HOTEL QUINTA DAS LÁGRIMAS, 6 de DEZEMBRO de 2011, 21H00] COIMBRA




CONVITE


 O Hotel Quinta das Lágrimas, as Edições MinervaCoimbra 
e o Autor têm o prazer de convidar para o lançamento do livro

HOMENAGEM A ANDY WARHOL

de Armando Ponce de Leão.

A apresentação será feita pela Profª  Doutora Isabel Ponce de Leão 
e pela Prof.ª Doutora Graça Capinha.

 A sessão realiza-se no dia 6 de Dezembro, pelas 21H00, 
no Hotel Quinta das Lágrimas, Sala Jardim, em Coimbra.

***

Depois de uma vasta obra científica publicada (autor de cerca de 200 trabalhos publicados em revistas internacionais e comunicações em conferências, com referee) este é o segundo livro de contos de Armando Ponce de Leão.

Em Janeiro de 2010 aquando da apresentação de “A não história da mãe sobrante” o Professor Aníbal Pinto de Castro  considerou o seu autor e o seu estilo literário “uma revelação”. 
O  saudoso catedrático de Letras admitiu estarmos
 “perante uma arte de narrar".


O Autor



 Armando Ponce de Leão Policarpo, foi professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Física Nuclear da mesma Universidade e do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas.

Natural de Coimbra, licenciado pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FC-UC) (1957). Diploma of Advanced Studies, pela University of Manchester Distinction (1960).

Doutorado, pela University of Manchester (1964).
Doutorado em Física, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia (1965). Agregado.
Assistente do Centro de Estudos de Física Nuclear da Universidade de Coimbra (1957). 2º Assistente da Faculdade de Ciências Universidade de Coimbra (FC-UC) (06-11-1963 a 09-01-1966). 1º Assistente da FC-UC (10-02-1966 a 04-06-1968).
Professor extraordinário da FC-UC (de 05-06-68 a 30-11-79).
Professor catedrático de Física da FCT-UC (de 01-12-1979 a 31-05-2003).
Desenvolve a sua actividade das áreas da física nuclear, física atómica e molecular, física de partículas, Física da radiação e detectores de radiações atómicas e nucleares.
Director do Museu de Física da Universidade de Coimbra e presidente do Conselho de Departamento de Física da mesma universidade, director do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas; delegado nacional do Conselho do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN); representante português no Comité de Política Científica e Tecnológica da OCDE e no Centro Comum de Investigação da Comunidade Económica Europeia (CEE).
Director do Centro de Física da Radiação e dos Materiais da Universidade de Coimbra.
Presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), Coimbra.
Membro de várias associações e comités tais como Instituto de Alta Cultura, Instituto Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Sociedade Portuguesa de Física, Sociedade Portuguesa de Física e Química, Academia de Ciências de Lisboa, Sociedade Europeia de Física, Comité de Selecção do Programa Mobilizador da Espanha, Conselho Científico do Comité Portugal (CERN), Comité Restrito Europeu para Futuros Aceleradores, Comité de Pesquisa e Desenvolvimento em Detectores e Sociedade Portuguesa de Protecção contra as Radiações.
Autor de cerca de 200 trabalhos publicados em revistas internacionais e comunicações em conferências, com referee. Participou em conferências internacionais ou actividades educacionais em inúmeros países, podendo-se citar entre eles Áustria, Brasil, Chile, Finlândia, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Rússia, Espanha, Suécia, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos.

Fonte:www.acad-ciencias.pt/academicos/ajplpolicarpo.html e
 http://www.abc.org.br/sjbic/curriculo.asp?consulta=policarpo